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domingo, 6 de março de 2016

O Espiritismo é ciência

O Espiritismo apresenta-se como uma das ferramentas, dentre várias, para se compreender as dinâmicas da natureza espiritual que está diretamente relacionada com as dinâmicas da natureza material. Ele não é a primeira nem será a última teoria, que se transformou em método de análise, compilada com o objetivo de explicar determinados fenômenos, que estão além da compreensão dos cientistas materialistas.

Falamos no Espiritismo enquanto ciência. Mas por que ele foi considerado pelo próprio codificador como uma ciência? 
 
                Apoiemos a nossa reflexão na definição de Allan Kardec para o que seja o Espiritismo, na obra intitulada “O que é o Espiritismo”:
 
“O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações”.  (KARDEC, 2007, p.12 [grifo nosso].)
 
Em nenhum momento Kardec cita o Espiritismo como uma religião, ele considera a ocupação de esclarecer os problemas morais da humanidade para a Filosofia, que cumpre esta tarefa há mais de seis mil anos. (1) Novamente na mesma obra, ele ressalta o caráter científico da doutrina espírita:

“O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal”. (KARDEC, 2007, p.12 [grifo nosso].)
 
O Espiritismo foi compilado segundo um método científico, qual seja o cumprimento de algumas etapas, as quais respeitarão o rigor científico, utilizado por cientistas de todas as áreas do conhecimento. São elas: 
                
Coleta de dados: nesta primeira etapa, Kardec iniciou o processo a partir da observação do fenômeno das mesas girantes, realizando levantamento de onde ocorria este fenômeno e estabelecendo contato com os médiuns envolvidos, que lhe ofereciam as suas experiências.
 
Registro e armazenamento: Kardec, durante a atividade de observação e levantamento de dados, registrava a sua percepção dos fenômenos, ao mesmo tempo em que surgiam dúvidas, as quais posteriormente seriam esclarecidas pelos Espíritos envolvidos no projeto de codificação.
 
Processamento: podemos inferir que esta foi a fase mais longa e exaustiva para o codificador e sua equipe, pois é a fase em que mais exige da capacidade de concentração do cientista. Qualquer deslize pode ser fatal para a compreensão de sua teoria (mesmo com tanta precisão, as gerações posteriores ainda interpretam de maneira distorcida). Nesta etapa, o processamento dos dados, a sua organização em uma sequência lógica, o esclarecimento das dúvidas surgidas com a reflexão e com os testes, a inserção de novos itens e a extinção de informações desnecessárias, a adoção da linguagem a ser utilizada para que a proposta seja transmitida da maneira mais didática possível são as exigências do método científico seguido à risca pelo codificador.
 
Ao se respeitar tais etapas, aquele que não possui amor pelo que faz, cede no aparecimento da primeira dificuldade. O objetivo de Kardec, como um verdadeiro cientista, foi o de construir a teoria sobre um alicerce firme, ao mesmo tempo em que deveria ser flexível para que o futuro consiga dar conta de suas renovações, acompanhando a evolução do conhecimento humano. Uma teoria construída sobre os rigores do método é passível de sofrer lapidações com o passar do tempo, sem que seja anulada por completo, sempre mantendo a sua essência. Uma teoria verdadeira sempre será atual, independente do período histórico onde foi construída, ela contemplará a humanidade e será moldada de acordo com cada diversidade de interpretação, sem que para isso tenha que perder o seu núcleo.
 
Na fase de processamento dos dados, Kardec e os Espíritos organizaram as perguntas e as respostas na forma de setores, respeitando o aprofundamento crescente da teoria. Podemos observar que os livros básicos: dos médiuns, dos Espíritos e o Evangelho, cada um destes segue uma sequência que parte do pensamento simples, com poucas variáveis e de fácil interpretação até o mais complexo, com mais elementos a serem explorados e compreendidos e um conteúdo que exige mais conhecimento de outras fontes por parte do leitor, para que ele não caia no erro das interpretações simplórias. Como um exímio cientista e educador, preocupado em corresponder ao processo cognitivo dos leitores, principalmente os iniciantes, Kardec utilizou toda a sua capacidade natural de transmissão do conhecimento, da maneira mais didática possível, para que esta proposta não ficasse limitada a apenas uma elite intelectual.
 
Resultado final: todo trabalho científico só é válido se ele consegue, depois de tantos percalços, responder ao primeiro questionamento que surgiu na mente do pesquisador, pois, do contrário, ele se transforma em divagações. Conseguimos ver que Kardec foi feliz em seu trabalho, pois apesar da abordagem ter permeado uma extensa área do fenômeno espiritual, ele não perdeu o foco. Com a finalização de seu trabalho, Allan Kardec, que ainda será bibliografia básica de todas as ciências, alcançou a totalidade do conhecimento nesta fase da evolução do homem terrestre.
 
Aqueles que estudam a sua obra, com outros olhos que não os do egoísmo, conseguem perceber que a proposta do Espiritismo é de apoiar tanto as ciências, quanto as religiões, no esclarecimento dos eventos onde causa e consequência se entremeiam em Espírito e Matéria. Como ditado acima, Kardec descobriu, durante os seus estudos, que o método científico, quando livre de pré-conceitos, é capaz de alcançar um universo jamais imaginado pelo cientista materialista.
 
O Espiritismo, através do método científico, compreendeu que as relações entre os Espíritos são permeadas pela conduta moral, aquela já ensinada por Jesus Cristo, e não pelas religiões. 
               
O Espiritismo veio para fazer parte tanto das sociedades orientais quanto ocidentais, para todas as etnias, crenças e pensamentos. Ele veio para unir e não para ser mais uma religião que divide e se apropria de sua patente.
 
(1) Nota da Redação: Para a maioria dos espíritas, excetuados os adeptos do chamado Espiritismo laico, o Espiritismo é também religião, pois a própria obra kardequiana o define como tal de forma inequívoca.  Em seu discurso “O Espiritismo é uma religião?”, publicado na Revue Spirite de dezembro de 1868, Allan Kardec perguntou: “O Espiritismo é uma religião?” E, em seguida, respondeu: “Ora, sim, sem dúvida, senhores”.  Mais adiante indagou: “Por que, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião?” E ele mesmo esclareceu: “Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem”. Trata-se, pois, de uma religião não hierarquizada, sem pastores nem sacerdotes, sem cultos nem rituais, mas com um objetivo definido, que é religar a criatura ao Criador.

Bibliografia:
LIBAULT, André. Os quatro níveis da pesquisa geográfica. In: Métodos em questão. Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1971.
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. São Paulo: IDE, 2007.
O Livro dos Espíritos
. São Paulo: FEESP, 2007.
O Livro dos Médiuns
. São Paulo: IDE, 2005.
O Evangelho segundo o Espiritismo
. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

A autora é natural de São Paulo, Bacharel e Licenciatura em Geografia pela Universidade Estadual Paulista - UNESP, é professora de francês, massoterapeuta oriental e pintora. Atualmente realiza mestrado na área de Geografia Física pela Universidade de São Paulo - USP, pesquisando a percepção da paisagem em imigrantes.
 
ANGÉLICA DOS SANTOS SIMONE

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