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domingo, 1 de janeiro de 2017

Amor, perdão, cura e autocura Entrevista com Dr. Andrei Moreira


Dr. Andrei, o que é a saúde, a doença, cura e a autocura na abordagem médico-espírita?
A saúde é entendida como o reflexo do equilíbrio do ser em relação às leis divinas. Na visão espírita, o homem é um ser imortal, alguém que preexiste à vida física, que sobrevive ao fenômeno biológico da morte e, ao longo do processo evolutivo, através da reencarnação, vai crescendo, desenvolvendo-se em direção a Deus. A saúde do corpo físico é um reflexo do nível de equilíbrio desse espírito no processo evolutivo perante o amor, o belo e o bem. Já a doença é uma sinalização interior de reequilíbrio, convidando o ser a reconectar-se com o amor e com a fonte. É uma mensagem gerada no mais profundo da realidade espiritual do ser e que se reflete no corpo físico como um convite à reconexão com o amor, ao desenvolvimento do autoamor e do amor ao próximo. Nessa visão, a saúde e o adoecimento são construções do próprio homem e ninguém é vítima de nada, senão de si mesmo, das suas próprias decisões, das suas próprias escolhas, daquilo que decide e determina em sua vida. Portanto, toda cura é também um fenômeno de autocura, porque, para que ela se instale em definitivo, é necessário que haja não simplesmente um alívio dos sintomas e uma resolução do processo biológico no corpo físico, mas também uma reformulação moral do pensamento, do sentimento e da ação, fazendo com que o ser esteja transformado em profundidade, em consonância com a lei divina, ou seja, mais em sintonia com a lei do amor.

O amor é, então, o caminho para a cura?
O amor é o grande medicamento, é a grande finalidade da existência. Na verdade, nós caminhamos em direção a Deus como o “filho pródigo” da parábola de Jesus, reconectando nossa relação com o Pai e retornando para a casa de Deus, que, na verdade, é dentro do nosso próprio coração, onde Deus está. Pouco a pouco, vamos fazendo isso, descobrindo as nossas virtudes, a grandeza íntima que há dentro de nós, tudo aquilo que Deus nos deu como possibilidade evolutiva e que pode nos realizar plenamente. Nesse contexto, o amor representa um movimento medicamentoso por excelência, enquanto movimento de respeito, de consideração, de valorização, de inclusão, de consideração. Ele nos trata as doenças da alma, que são orgulho, egoísmo, vaidade, prepotência, arrogância, e nos coloca em sintonia com a fonte, que é Deus, nos auxiliando a reconectar-nos com o Pai. Desenvolver o amor é o caminho mais rápido, fácil e eficaz para a cura da alma e do corpo.
Nos seminários, você apresentou também o perdão como o caminho para a saúde integral. Fale um pouquinho sobre isso.
Sim, o perdão é condição essencial para a saúde. Sem o perdão, não há paz interior, não há saúde nem física, nem emocional. Shakespeare dizia que não perdoar ou guardar mágoa é como beber veneno, desejando que o outro morra. O veneno age naquele que o guarda, que o cultiva dentro de si. E a mágoa atua dentro de nós na semelhança de uma planta que, uma vez guardada, cultivada, vai crescendo, criando raízes, dá flores, frutos e multiplica-se. E nós acabamos enredados em uma série de dores emocionais, sem que nem saibamos, às vezes, onde tudo começou. Tudo porque vamos guardando as coisas dentro de nós, sem trabalhar, sem dialogar, sem metabolizar emocionalmente aquilo que estamos sentindo, vivenciando. Quando vemos, a situação está numa questão muito profunda e muito grave.

Para que tenhamos paz, é necessário que abracemos o perdão como um projeto. O perdão é uma decisão pela paz, que se traduz em atitudes pelo estabelecimento dessa paz, no entendimento das questões emocionais, das nossas características pessoais, das circunstâncias que envolvem o ato agressor e da responsabilidade e co-responsabilidade nossa no processo. Ele se traduz como um processo, porque não se dá da noite para o dia. Ele se constrói ao longo do tempo e através de atitudes sucessivas de busca dessa metabolização emocional que, muitas vezes, precisa de um acompanhamento terapêutico profissional, através de um psicólogo que faça essa abordagem íntima e ajude-nos a encontrar nossas respostas, sentidos e significados mais profundos.

O perdão passa também pelo acolhimento e aceitação da nossa humanidade e da humanidade do outro, sobretudo, na superação dos traumas, porque só aceitando a condição fundamental do ser humano, de estar num processo contínuo de erro e acerto, é que a gente dá conta de conviver com os equívocos do outro que nos fere e até mesmo com os nossos mesmos. Naturalmente, nós só fazemos para o outro aquilo que fazemos para nós. Então, nós só conseguimos aceitar a humanidade do outro quando aceitamos a nossa própria humanidade, quando acolhemos em nós a nossa capacidade de errar e recomeçar, abraçando o auto-amor como uma proposta de vida. O autoamor é filho da humildade, uma das representações magníficas da amorosidade divina, aquela decisão interna de nos acolher, de nos tratar com ternura, compaixão e com a benevolência que nós necessitamos, embora com a firmeza necessária para domar as nossas paixões e renovarmo-nos de nossos defeitos que julguemos necessários. Então, o perdão é uma atitude de conquista desse estado de paz interior, através do entendimento das circunstâncias que nos envolvem e da decisão pelo amor.

Em Abaeté, é muito grande o número de pessoas viciadas em anti-depressivos, ansiolíticos, bebidas e drogas pesadas, como o crack. O que você poderia falar para essas pessoas?
Toda dependência é uma busca de aplacar o vazio interior através de coisas externas. Mas esse vazio interior, que nós todos temos, só é aplacado pela presença do autoamor. O vazio é um vazio do amor, mas esse amor que nos falta não é o amor que vem do outro, é o amor que vem de dentro, é o amor que a gente pode se dar. Então, para o tratamento e a profilaxia de qualquer processo de dependência, é importante ensinar as pessoas a se valorizarem, se respeitarem, se gostarem. A estabelecerem relações familiares honestas em que as pessoas dialoguem, conversem, estejam atentas umas às outras e partilhem suas emoções, mostrando-se, não de forma idealizada, mas de forma honesta, real, ensinando cada um a ver, em todos nós, luz e sombra, beleza e feúra, coisas positivas e negativas. Nós precisamos aprender a acolher esses dois lados, aprendendo a transformar aquilo que não amamos em nós e a valorizar e desenvolver aquilo que há de bom, de positivo.

A depressão passa pela não aceitação da vida. Há uma mensagem subliminar no depressivo que é: “como não tenho a vida que desejo, não aceito a vida que tenho”. Há também uma mensagem da arrogância, da prepotência de acreditar que, ferindo a si mesmo, fere a própria sociedade, fere o mundo. Muitas vezes, por trás da depressão, há culpas e processos autopunitivos profundos, em virtude da ausência da humildade, em se permitir aceitar a vida como pode ser e de recomeçar quantas vezes forem necessárias para se alcançar a felicidade.

No tratamento da depressão, é importante abordar a questão do desenvolvimento da aceitação da vida, da submissão ativa a Deus. Isso significa “aceitar a vida tal como ela está, mas fazendo tudo para se buscar aquilo que se deseja”, sem abandonar o prazer de viver, sem entrar naquela tristeza patológica, aquela tristeza excessiva que se configura como estado depressivo.

Os antidepressivos são muito úteis quando bem indicados durante um certo período, mas não podem virar uma muleta, eles não são a pílula da felicidade, não podem ser a fonte que nos dão a realização íntima, que aplacam a nossa dor. Nós temos, hoje, na nossa sociedade, uma medicalização excessiva, um uso abusivo de medicamentos, porque não aprendemos a lidar com naturalidade com as nossas emoções. O medo, a tristeza, a raiva, a alegria são emoções básicas, e nós temos que aprender a lidar com elas. Quando não lidamos de forma natural é que elas adoecem, se transformando em mágoa, em pânico, em euforia ou em depressão.

Na nossa sociedade, observamos que há um excesso de medicalização das emoções naturais. Tão logo a pessoa fica triste, já entra com um antidepressivo, um ansiolítico para que ela evite lidar com sua ansiedade ou sua tristeza. Mas a ansiedade e a tristeza são situações naturais da vida, que até um determinado nível são muito positivas e que nos falam muito a respeito de nós mesmos. É importante que o autoconhecimento guie o processo, pra que entendamos o que está acontecendo na nossa alma e na nossa vida. Marta Medeiros fala, de uma forma muito bela, que a tristeza é o quartinho do fundo onde a gente analisa a nossa vida. E é isso que nós temos que aprender: a estudar nossas emoções, nossas características, para retirar delas ensinamentos preciosos a respeito de nós mesmos e do outro e, com isso, nos tornarmos pessoas melhores.

O suicídio pode ser visto como uma doença da alma?
O suicídio é um ato de desespero em que o sujeito tenta matar a dor que há nele e, muitas vezes, ele envolve a família e os outros numa situação de dor ainda maior do que aquela que era a dor original. Por isso, também é uma manifestação de egoísmo. Nós devemos evitar o suicídio em nossa sociedade, estabelecendo acolhimento à dor emocional das pessoas, através de serviços competentes em que as pessoas possam ser escutadas, ouvidas, acolhidas e onde possam ser bem orientadas através de um acompanhamento terapêutico com profissionais competentes, que possam nos ajudar a metabolizar as dores e as dificuldades que vivemos. Precisamos, sobretudo, de um ensino religioso e moral que nos dê base e subsídio para entender quem somos, o que viemos fazer e para onde vamos e uma base moral que nos forneça elementos de estímulo ao desenvolvimento das virtudes que são potências da alma e verdadeiros profiláticos contra o suicídio.
Na visão espírita, o suicídio é um ato muito infeliz, porque o indivíduo reconhece-se vivo do outro lado da vida, matando somente o corpo físico. E aquela dor original, além de não estar resolvida, está aumentada pela circunstância do ato agressor à própria vida. Esse é um direito que nenhum de nós tem. Somente a Deus compete dar e retirar a vida. Então, diante daquele que cometeu o suicídio, nós devemos agir com compaixão e misericórdia, enviando-lhe as nossas preces. As orações sinceras daqueles que amam ou mesmo daqueles que têm boa vontade e desejam auxiliar chegam até o coração daqueles que estão em sofrimento do outro lado da vida como verdadeiros bálsamos, alívios e medicamentos que amenizam seu sofrimento e os auxiliam a prosseguir. Como a vida é eterna, cada um terá a oportunidade de se renovar, de recomeçar, embora tendo que lidar com os resultados infelizes que, às vezes, são sofrimentos desnecessários desses atos de desespero.

Na edição de dezembro, o Nosso Jornal abordou um problema preocupante, que é o número crescente de acidentes de trânsito com vítimas fatais, muitas vezes em veículos dirigidos por menores. O que poderíamos dizer, sobretudo aos pais que têm dificuldade em impor limites, em dizer não, e acabam emprestando o carro ou presenteando o filho menor com motocicletas?
Isso não pode acontecer de forma alguma. Os pais não podem abrir mão do seu direito e da sua responsabilidade como educadores. Nossa sociedade exige que, para uma pessoa dirigir, ela esteja habilitada, e isso somente após a maioridade. Os pais têm que aprender a respeitar isso. Se não respeitam essa condição fundamental básica, assumem as consequências pelos erros daqueles que lhes são responsabilidade direta. Nós sabemos que, hoje, é muito difícil para as famílias aprender a colocar limites, porque vivemos processos educacionais que dão muita liberalidade aos jovens, sem o processo educacional que os ensine a usar a liberdade com responsabilidade. Então, os pais, enquanto educadores morais, não podem abrir mão desse papel. Devem ser aqueles que utilizam de vários instrumentos, procuram ajuda profissional se necessário, mas de forma alguma abrem mão do seu papel, desistindo dos adolescentes a eles vinculados. Precisam ser, sim, aqueles que buscam todos os recursos e meios para fornecer ao indivíduo o elemento educacional, que vem, sobretudo, pelo exemplo, porque os adolescentes aprendem muito mais vendo o que os pais fazem, do que escutando o que os pais dizem. O exemplo da família é extremamente importante no processo educacional, e a sociedade deve ter leis e cumprimentos das leis, deve estabelecer processos educativos para menores que sejam pegos sem habilitação, assim como para aqueles que sejam pegos alcoolizados, dirigindo, colocando em risco a sua vida e a vida de outros. E os pais devem agir com responsabilidade também, estabelecendo processos internos na dinâmica familiar que sejam processos delimitadores quando os menores ou quando os indivíduos, mesmo maiores, atinjam esse nível de irresponsabilidade, colocando em risco a sociedade. É dever dos pais fazer essa delimitação.

Inclusive, com internet, não é? Os jogos de internet que são viciantes também…
Jogos viciantes, agressivos, que desenvolvem a agressividade no indivíduo e que, muitas vezes, alienam o indivíduo da vida de relação. Nós temos visto adolescentes viciados em jogos de internet que não priorizam a relação com o outro, o estar fora de casa, o conviver. Com isso, acabam se tornando adultos fechados, reprimidos e com dificuldades de estabelecer laços afetivos profundos. Então, todas as instrumentações da vida são positivas, mas têm que ser limitadas. Os pais têm que limitar o uso da internet, entrar em acordo com seus filhos. Não agir simplesmente de forma autoritária, mas estabelecer acordos para processos educativos que levem o jovem a se envovler com esporte, com a sociabilização, com a educação moral, através da educação religiosa, das atividades sociais, a responsabilização com o bem a seus semelhante. O jovem pode ser direcionado para atividades voluntárias, caritativas, que são extremamente educadoras e fazem o jovem conhecer outras realidades, vislumbrar outras perspectivas e, muitas vezes, ressignificar a própria vida e o próprio contexto. É dever dos pais estabelecer os limites e as regras da convivência sem abrir mão desse direito e dessa obrigação moral que eles têm.

Esse ciclo de palestras em Abaeté foi também o lançamento do seu livro “Cura e Autocura”. Fale um pouquinho sobre esse trabalho.
Andrei Moreira 

“Cura e Autocura, uma visão médico-espírita”, é uma publicação da Ame editora, o órgão editorial da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais, e aborda a saúde e o adoecimento dentro da visão espírita. São 16 capítulos, abordando diversos aspectos como, por exemplo, o perdão como caminho de cura, a caridade como instrumento de cura, a ação do pensamento na saúde e na doença, as curas de Jesus, a saúde e o adoecimento na visão espírita, terapêutica, médico-espírita, bem como o terapeuta como curador e outros assuntos, com apresentação de casos, de trabalhos práticos também nesse sentido, sobretudo o amor e o auto-amor como caminhos de encontro do ser consigo mesmo e de cura do corpo e da alma.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Afinal, o que é magnetismo animal?

mesmer
Franz Anton Mesmer

 Há muito desconhecimento quanto ao Magnetismo Animal. Originalmente, ele nada tem a ver com a concepção popular atualmente divulgada.

O termo “magnetismo animal” foi criado pelo médico alemão Franz Anton Mesmer (1734 – 1815). como um novo paradigma da física de então para fundamentar sua renovação da ciência médica, já que ele considerava falsa a teoria aceita pela comunidade científica de sua época — uma teoria mecanicista para as forças (luz, eletricidade, magnetismo, eram consideradas matérias, esferas duras, sem peso e invisíveis). Para Mesmer, porém, as forças seriam ondas, vibrações de um elemento primordial (o fluido cósmico universal, termo também proposto por ele). Segundo ele, cada uma das diversas faixas vibracionais do fluido universal impressionava os nossos sentidos físicos, como a luz para o olho e o ar para os ouvidos. Desse modo, o “magnetismo animal”, segundo ele, seria o meio de comunicação entre a vontade do magnetizador e o paciente, um estado de vibração do fluido cósmico universal acima da luz (que na época era o mais sutil fenômeno), perceptível por nosso sistema nervoso e pelo senso íntimo, explicando assim os efeitos do tratamento pelo passe e os efeitos do sonambulismo provocado.


Desse modo, o passe curativo não seria uma simples transmissão de substância (o que a teoria materialista dos fluidos materiais aceita pelos físicos da época levaria a crer), como costumeiramente se pensa, mas uma ação dinâmica do organismo saudável do magnetizador em sintonia com o doente, acelerando o ciclo natural da cura, como também funciona na medicina homeopática, sendo assim ambas compatíveis! Isso explica porque o fundador da homeopatia, Samuel Hahnemann (1755-1843), não só aplicava passes mesméricos em seus pacientes, combinando-os com os remédios; mas também acrescentou essa prática à sua medicina, em seu livro Organon da arte de curar.
 

Depois, no século seguinte, os espíritos iriam aceitar essa teoria do “fluido universal” proposta por Mesmer como conceito fundamental da doutrina espírita. Demonstrando a relevância dessa recuperação, vale lembrar que Kardec considerava Magnetismo Animal e Espiritismo como ciências irmãs, e que seria impossível compreender uma sem conhecer a outra.

Os médicos homeopatas da época de Alla Kardec faziam uso do tratamento de passes do Magnetismo Animal, e grande parte deles era espírita. Essas três ciências: Espiritismo, Magnetismo Animal e Homeopatia se afinavam, se uniam, compartilhavam seus fundamentos. formavam um ambiente cultural propício para a difusão dessas ideias. Uma pena que, com a virada do século 19 o materialismo dogmático tenha penetrado na Universidade como uma erva daninha, entranhando-se e encobrindo as conquistas científicas espiritualistas do século anterior. Está na hora de recuperar para transformar.

O ainda mais surpreendente está no fato de que, consideradas as diferenças culturais de cada época, as ideias de Mesmer sobre o fluido universal, considerando as forças como ondas, é uma antecipação conceitual intuitiva do atual paradigma da física moderna! 

Veja essa explicação no livro Revolução Espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec.

 

Paulo Henrique de Figueiredo

Administrador de empresas, pesquisador e palestrante espírita, autor de Revolução espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec, é também autor de Mesmer – a ciência negada e os textos escondidos, obra que resgatou a ciência do magnetismo animal, considerada por Allan Kardec ciência irmã do espiritismo. É apresentador do programa de rádio Universo Espírita – pensar e viver com liberdade.

O que é preciso para SER espírita?

Para ser espírita é preciso fazer parte de uma sociedade? Participar de reuniões periódicas? Ter-se formado em cursos de habilitação? Carregar um diploma? Vamos ver que nada disso é necessário para ser espírita, como explicou Allan Kardec.

Uma característica importante da autonomia moral, base fundamental da teoria espírita, como pretendemos demonstrar na obra Revolução Espírita, está no fato de que, por sua própria definição, deve ser adquirida por um esforço racional a partir de uma iniciativa espontânea e desinteressada. Dessa forma, ninguém se torna moralmente livre se for catequizado ou doutrinado. Também não é possível identificar um indivíduo autônomo e responsável somente por seus atos (sem conhecer as intenções), por meio de um diploma ou insígnia, ou sua participação numa congregação ou confraria.

Mesmo a Sociedade Parisiense, presidida por Kardec, estando “alinhada oficialmente entre as sociedades científicas, não é nem uma confraria, nem uma congregação, mas uma simples reunião de pessoas ocupando-se do estudo de uma ciência nova que ela aprofunda” (Revista Espírita 1863, p.122). Quanto às relações entre a Sociedade de Paris e as outras sociedades com as quais se correspondia, havia a mais completa independência: “O laço que as une é, pois, um laço puramente moral, fundado sobre a simpatia e a semelhança das ideias; não há, entre elas, nenhuma filiação, nenhuma solidariedade material” (Revista Espírita 62, p.110).

O que faz um espírita, então?

Segundo Kardec, “quem partilha nossas convicções a respeito da existência e da manifestação dos espíritos, e das consequências morais que disso decorrem, é Espírita de fato” (Revista Espírita 64, p.130). Por isso, “as sociedades não são de nenhum modo uma condição necessária à existência do espiritismo”, afirma, e se “elas se formam hoje, que cessem amanhã, sem que a sua marcha seja entravada no que quer que seja”, pois “o espiritismo é uma questão de fé e de crença e não de associação”.

Basta estar de acordo com os princípios fundamentais da doutrina espírita para ser espírita.


Paulo Henrique de Figueiredo

Administrador de empresas, pesquisador e palestrante espírita, autor de Revolução espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec, é também autor de Mesmer – a ciência negada e os textos escondidos, obra que resgatou a ciência do magnetismo animal, considerada por Allan Kardec ciência irmã do espiritismo. É apresentador do programa de rádio Universo Espírita – pensar e viver com liberdade.
http://revolucaoespirita.com.br/ser-espirita/

A infância de Hippolyte Rivail ou Allan Kardec

O Jovem Rivail passou sua infância e juventude na casa de sua avó materna, Charlotte Bochard, na cidade francesa de Bourg-en-Bresse, no departamento de Ain. Vinha de uma importante família, tendo sido o seu avô, o patriarca Benôit Marie Duhamel, préfet do departamento de Ain (cargo equivalente ao de governador de estado).

A cidade de Bourg, no decorrer dos séculos, era um destino de viagem muito apreciado pelos franceses, e foi frequentada por reis, nobres, também por Napoleão Bonaparte, e muitas famílias de férias. Os bressans, como eram conhecidos seus moradores, tinham a fama de serem reservados, mas bastante receptivos e hospitaleiros, quando sua proximidade fosse conquistada.

A casa da família Duhamel era uma Maison de maître, casa típica das famílias mais abastadas daquela época, como os profissionais liberais e a elite rural. Eram construídas em três pavimentos. O primeiro abrigava as salas, cozinha, sala de jantar, áreas de serviços. No segundo andar localizava-se a área íntima, como quartos. Por fim, um sótão ocupara o terceiro pavimento. Sua fachada possuía três fileiras de janelas e uma grande porta de entrada que tinha acesso por uma pequena escadaria.

A Maison onde viveu Rivail era bastante ampla. Havia um grande pátio, estábulos para animais, e em suas proximidades diversos terrenos serviam à produção agrícola. Ficava numa região mais afastada do centro urbano da cidade, e os costumes eram típicos da vida que se leva hoje nos sítios e fazendas. Tirar leite das vacas, produzir queijo, colher legumes e verduras na horta, dar comida aos animais. As cercanias comportavam um ambiente bucólico e agradável, o que nos remete a uma infância rica de oportunidades de aprendizado para aquele esperto e inteligente menino.

Em 1828, aos 24 anos, em seu livro: Plano para melhoria da Educação Pública da França, o jovem Rivail iria escrever sobre as condições ideias para a educação infantil: “teria suposto este pequeno estabelecimento não em Paris, mas numa bela região, onde as satisfações da vida campestre seriam unidas às ocupações sérias”. As aulas seriam “de história natural no campo, de instruí-los em conversações, durante passeios. Teria aconselhado o educador fazer seus alunos viajarem, para estudarem, eles próprios, os costumes dos povos e visitar os lugares históricos”.

Ou seja, ao escrever essas palavras, o jovem professor Rivail estava certamente lembrando-se de episódios de sua própria infância.



Paulo Henrique de Figueiredo

Administrador de empresas, pesquisador e palestrante espírita, autor de Revolução espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec, é também autor de Mesmer – a ciência negada e os textos escondidos, obra que resgatou a ciência do magnetismo animal, considerada por Allan Kardec ciência irmã do espiritismo. É apresentador do programa de rádio Universo Espírita – pensar e viver com liberdade.


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