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quarta-feira, 7 de março de 2018

O VALOR CIENTÍFICO DA PRECE

 A Prece - Definição
Segundo Emmanuel,
 A prece é a forma mais sublime de expansão do sentimento humano, partindo da criatura ao Criador.
 Ou como nos ensina Isabel Campos,
O fio milagroso da nossa comunhão com os planos elevados.
Conquanto sejam exatas as definições acima apresentadas preferimos nos deter numa outra, formulação também por Isabel Campos (Carta do Coração - psicografia de F.C.Xavier) que nos ensina o seguinte:
"A prece é como que uma escada invisível, por onde subimos aos mais altos campos da experiência humana. Por intermédio dela, nossa alma recebe forças multiplicadas e só mesmo junto a essa fonte bendita, poderemos encontrar o suprimento de energia com que vamos vencendo aos provas redentoras".
As definições apresentadas são auto-explicativas e dispensam complementações. Passemos assim para o nosso tópico sequente onde falaremos alguns comentários proveitosos sobre o assunto.

Comentários
Conforme acabamos de ver é através da prece que nos colocamos em estreito contato com a espiritualidade superior, advindo, em consequencia, uma série de benefícios para quem ora. Trata-se, indubitavelmente, de um dos mais eficientes recursos de que dispomos na luta de cada dia.
Subindo pela escada invisível, estaremos analisando o assundo por outro lado, em melhores condições de rogarmos pelos nossos semelhantes, levando-lhes valiosos benefícios.
Tratando-se de uma expansão do sentimento, concluimos que não existem posições especiais para proferí-la, e deduzimos também que não são as palavras que tornam a oração mais ou menos poderosa, conforme nos ensina a parábola do publicano e do fariseu.
Toda prece deve ser feita como coração e não com os lábios.

Os Resultados da Prece
Muitos se decepcionam e desacreditam do valor da prece pela ausência de resultados em casos específicos. Recordemos, contudo, que o resultado da prece não vem sempre na forma de um manjar celeste; muitas vezes, ao rogarmos, somos atendidos na forma de duras lições que nos trarão enorme proveito. Convidamos os Aprendizes à leitura da lição de Irmão X do Livro "Luz Acima"intitulada "A Proteção de Santo Antônio" 

"A Prece, diz-no Emmanuel, no seu livro que o tem o seu nome, deve ser cultivada, não para que sejam revogadas as disposições da lei divina, mas a fim de que a coragem e a paciência inundem o coração de fortaleza, nas lutas ásperas, porém necessárias".
Lembremos que muitos, ao orarem limitam-se a conjugar o verbo pedir; consideremos, entretanto, a admiravél lição extraída do livro "Renuncia", também da autoria de Emmanuel:
"Naturalmente que deveremos apelar para os céus, mas, ao interpretar a prece como rogativa, não deveremos ir além do "Pai Nosso", porque, acima de tudo, julgo que a oração deve ser um esforço para melhorarmos".

Recordemos ainda que Jesus em uma das suas assertivas disse-nos:
 "Tudo o que pedirdes em meu nome ser-vos-á concedido",
ora, pedir em nome de Jesus é pedir em benefício dos nossos semelhantes e não em nosso próprio.

Contudo é o próprio Emmanuel que volta a nos dizer que adiante das grandes dores, uma coisa será lícita solicitarmos: esclarecimento.
É evidente que temos que começar pelos primeiros degraus e, em seguida, irmos subindo até chegarmos ao Criador.

Novamente, a Escada

Voltando à feliz comparação de Isabel Campos referimo-nos à figura abaixo que bem ilustra a sequência lógica que devemos seguir ao nos elevarmos até o Pai.

DEUS - PLANO DIVINO
JESUS - ESFERA CRÍSTICA
MARIA DE NAZARET PROTEÇAO PATROCÍNIO
ISMAEL - DIREÇAO NACIONAL
RICARDO DIREÇÃO NANCIONAL
FRATERNIDADES -AUXILIO- COLABORAÇÃO
INSTRUTORES -GUIAS - TRABALHOS PRÁTICOS
PROTETORES PESSOAIS - SEGURANÇA - AUXILIO

Torna-se muito difícil entendermos o Dirigente que chega as Centro após ter "vencido"as inúmerias barreiras do trânsito, dos ponteiros do relógio, da poluição, etc.. e de imediato ligar-se ao Criador!

A Prece - Complementação

Encerrando o assunto referene à prece lembremos que o nosso Divino Amigo exortou-nos à oração e à vigilancia. O que significa vigiar?
É André Luiz que nos responde na "Agenda Cristã" :
 'Vigiar não é desconfiar. É ascender a propria luz, ajudando os que encontram nas sombras".
 Esclarecendo-nos que vigiar é ,antes de uma atitude de alerta, uma ação positiva onde procuramos identificar o semelhante que necessita de nossa ajuda.
Finalizando com uma preciosa lição do livro "Boa Nova" de Irmão X que deverá permanecer indelével em nossa mentes:

"É necessário, portanto, cultivar  a prece, para que ela se torne um elemento natural da vida, como a respiração. É indispensável conheçamos o meio seguro de nos identificarmos com o Nosso Pai."

Extraído do livro - Iniciação Espírita - Fraternidade dos Discípulos de Jesus - Coordenação Edgard Armond

PARÁBOLA DO FARISEU E DO PUBLICANO



Propôs também a seguinte parábola a alguns que confiavam na sua própria justiça de desprezavam aos outros:
Subiram dois homens ao templo para orar: um fariseu e outro publicano. O fariseu posto em pé, orava dentro de si dessa forma:
 Ó Deus, graças te dou, que não sou como os demais homens, que são ladrões, injustos, adúlteros – nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.
O publicano, porém, estando a algumas distância, não ousava nem ainda levanta os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo:
“Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta, será humilhado; mas o que se humilha, será exaltado.”     ( Lucas XVIII 9-14)
A seita farisaica era a mais prestigiada no tempo de Jesus, a mais influente, a mais dominadora, a que mais se salientava, Era uma espécie de Catolicismo Romano.
Os fariseus, entretanto, eram servis observadores das práticas exteriores, do culto e das cerimônias. A religião, para eles, era uma aparência de virtudes: preferiam sempre a letra da lei, que mata, ao espirito que vivifica! Eram hipócritas, inimigos encarniçados das inovações, cheios de orgulho de excessivo amor ao domínio.
Eles tinham uma aversão especial aos publicanos, a quem consideravam gananciosos, e também porque, inimigos do fisco, tinham de pagar a estes os impostos que lhes cabia na coleta.
De maneira que os publicanos eram, para os fariseus, homens desprezíveis da baixa sociedade, e, portanto, cheios de mazelas, “Ladrões, injustos, adúlteros”, não só porque não se curvavam muita vezes às práticas dos sacerdotes fariseus, como também, porque uma pretensão partida ria anterior os havia separado da seita farisaica, ou do Judaísmo.
Jesus, que muito se ocupou em desmascarar a hipocrisia dos fariseus, julgou acertado propor esta parábola cujas principais figuras eram: um fariseu e um publicano.
Quis o Mestre mostrar que o orgulho de seita, o orgulho de classe, o orgulho de família, o orgulho pessoal – finalmente o orgulho em suas múltiplas formas, é mais prejudicial a salvação do que mesmo “o publicanismo”, como o concebiam os fariseus! Ainda mais: quis demonstrar que o no publicano, com todos os seus senões, ainda se encontrava um gesto de humildade, o que não acontecia no fariseu.
O publicano conhece os seus defeitos, sabe que é pecador; nem ousa levantar os olhos para o céu; limita-se a bater no peito e da dizer: “O Deus, sê propício a mim pecador!“ Enquanto o fariseu reconhece em si somente qualidades boas, e a sua prece é uma acusação aos outros, até ao pobre publicano que lá estava rogando ao Senhor o perdão de suas faltas!
O orgulho é um dragão devorador, que destrói todas as qualidades do Espírito; enquanto a humildade, ao olhar de Deus , nos eleva à dignidade dos justos!
Vale mais se publicano e miserável, do que fariseu coberto de ouro e de pedras preciosas.
Extraido do Livro Parábolas e Ensinos de Jesus – Caibar Schutel

O PENSAMENTO E A VONTADE COMO FORÇAS - AURA

Para complementarmos a nossa lição falaremos um pouco sobra a Aura, iniciando pelos comentários constantes nos opúsculo "Psiquismo"de autoria do Cmt. Edgar Armond.

Além da superfície do corpo físico, pode ser vista uma espécie de névoa leitosa, emanação deste que se denomina Duplo Etéreo: mas, sobrepondo-se a este, existe outro elemento, ligado diretamente ao Perispírito e que se chama Aura, ambos com a mesma forma ovalada do corpo físico.

A superfície exterior da Aura funciona como se fosse uma película envolvente do conjunto (corpo físico, perispírito), conhecida em alguns autores, como película áurica.

Os pensamentos vêm do Espírito através da Mente, para o cérebro físico, enquanto os sentimentos, as emoções, tudo quanto for do campo moral, vêm do Perispírito diretamente para a Aura projetando-se sobre essa película evolvente, na forma de imagens, com  na TV em cores.

Sobre o mesmo assunto fala-nos André Luiz o seguinte (Mecanismo da Mediunidade):

Articulando, ao redor de si mesma, as radiações das sinergias funcionais das agregações celulares do campo físico ou do psicossomático, a alma encarnada ou desencarnada está envolvida na própria aura ou túnica de forças eletromagnéticas, em cuja tessitura circulam as irradiações que lhe são peculiares.

Evidenciam-se essas irradiações, de maneira condensada, até um ponto determinado de saturação, contendo as essências e imagens que lhe configuram os desejos no mundo íntimo, em processo espontâneo de auto-exteriorização, ponte esse do qual a sua onda mental se alonga adiante, atuando sobre todos os que com ela se afinem e recolhendo naturalmente a atuação de todos os que se lhe revelem simpáticos.
E, desse modo entende a própria influência que, à feição do campo proposto por Einstein, diminui com a distância do fulcro consciencial emissor, tornando-se cada vez menor, mas a espraiar-se no Universo infinito

Extraído do livro - Iniciação Espírita - Fraternidade dos Discípulos de Jesus - Coordenação Edgard Armond

O PENSAMENTO E A VONTADE COMO FORÇAS - CONCLUSÃO

conclusão dos subtítulos:
Pensamento e Vontade;
Ideoplastia;
Fotografia do Pensamento;
Formas- pensamentos.

Inúmeras são as consequências morais que deduzimos desse capítulo, (O Pensamento e a Vontade como Forças), a começar pela maledicência.

Vejamos:

Ao comentarmos o lado menos feliz de um companheiro de trabalho estaremos descarregando sobre ele cargas maciças de forças negativas que, conforme o seu estado espiritual, poderão prejudicá-lo enormemente. Assim lembramos e valorizamos os ensinamentos de André Luiz

 "O mal não merece comentário em tempo algum" e "Comentar o mal é dar forças a ele".

Por outro lado, passamos a entender melhor o ensinamento do Mestre que bondosamente nos advertia:
"Em verdade vos digo, ao pensardes em cometer o erro já o cometeste".

  e dessa forma conhecemos as responsabilidades que contraíamos ao falarmos ou mesmo pensarmos em algo.

Alerta-nos a lição desse cap a respeito das nossas conversações, leituras, filmes, programas de TV etc.. que devem ser selecionados. Isto não quer dizer que devamos viver num alheamento total do mundo, mas sim sermos vigilantes ao ponto de "podermos descer ao poço sem nos enlamearmos", conforme ensina André Luiz. Por exemplo, diante dos livros fúteis e até pornográficos que ocasionalmente caem em nossas mãos não podemos nos deixar envolver pela mensagem deletéria, mas sim examiná-lo tecnicamente "à distância"como diz o povo.

Nada melhor para uma ilustração global do que acabamos de dizer do que um trecho de André Luiz extraído do livro "Mecanismo da Mediunidade":

"O comprazimento nessa ou naquela espécie de atitude ou companhia, leitura ou conversação menos edificantes, estabelece em nós o reflexo condicionado pelo qual inconscientemente nos voltamos para as correntes invisíveis que representam.
É desse modo que formamos hábitos indesejáveis pelos quais nos fazemos pasto de entidades vampirizantes, acabando na feição de arcabouços vivos para moléstias fantasmas.
Pensando ou conversando constantemente sobre agentes enfermiços, quais sejam a acusação indébita e a crítica destrutiva, o deboche e a crueldade, incorporamos, de imediato, a influência das criaturas encarnadas e desencarnadas que os alimentam, porque o ato de voltar a semelhante temas, contrários aos princípios que ajudam a vida e a regeneram, se transforma em reflexo condicionado de caráter doentio, automatizando-nos a capacidade de transmitir tais agentes mórbidos, responsáveis por largo acervo de enfermidade e desequilíbrio."

E mais adiante a lição prossegue soando para todos nós com um grito de alerta:

"Suponhamos, porém, que o leitor se decida pelos fatos policias.
Avidamente procurará os sucessos mais lamentáveis e, finda a voluptuosa seleção dos crimes ou desastres apresentados, escolherá o mais impressionante aos próprios olhos, para nele concentrar a atenção.
Nesse estado de ânimo, atrairá companhias simpáticas que, em lhe escutando as conjeturas, passarão a cunhar pensamentos da mesma natureza, associando-se-lhe à maneira íntima de ver, não obstante cada um se mostre em campo pessoal de interpretação.
Daí a instantes, se as formas-pensamento fossem visíveis ao olhar humano, os comentaristas contemplariam no próprio agrupamento o fluxo tóxico de imagens deploráveis, em torno da tragédia, a lhes nascerem da mente no regime das reações em cadeia, espraiando-se no rumo de outras mentes interessadas no acontecimento infeliz.
 E, por vezes, semelhantes conjugações de ondas desequilibradas culminam em grandes crimes públicos, nos quais Espíritos encarnados, em desvario, pelas ideias doentes que permutam entre si, se antecipam à manifestações da justiça humana, efetuando atos de extrema ferocidade, em canibalismo franco, atacados de loucura coletiva, para mais tarde, responderem à silenciosas arguições da Lei Divina, cada qual na medida da colaboração própria, no que se refere à extensão do mal.
Extraído do livro - Iniciação Espírita - Fraternidade dos Discípulos de Jesus - Coordenação Edgard Armond

O PENSAMENTO E A VONTADE COMO FORÇAS - FORMAS-PENSAMENTO

Além dessas formasde pessoas e de objetos, os pensamentos podem engendrar formas as mais bizarras, relacionando-se elas, aliás, mais com os sentimentos que, propriamente, com os pensamentos.
Os videntes as vêem com garras (avareza), como relâmpagos e ziguezague (cólera e ódio), como figuras goemétricas (ordem cosmogônica e conceitos metafísicos), pétalas (oração), com cores as mais variadas, cada cor com sua significação; assim o amarelo indica intelectualidade, raciocínio; o azul, devoção, religiosidade; cor de ros, amor ou afeiçao; vermelh, cólera, violência; preto, maldade, perversidade. As cores puras são mais raras; em geral há mistura de cores com certa predominância da uma delas.
Nessa questão de cores existe oculta uma verdadeira ciência. Nossos mentores espirituais a conhecem bem e, num relance, analisando as cores da nossa aura, sabem logo da nossa verdadeira situação intelectual ou afetiva, sem perigo algum de engano, pois jamais poderemos ocultar a realidade nesse plano.
Sugerimos ao prezado Aprendiz que nos acompanha, a leitura do opúsculo publicado pela Editora Aliança sobre "Cromoterapia"de autoria do Cmt Edgard Armond.

Extraído do livro - Iniciação Espírita - Fraternidade dos Discípulos de Jesus - Coordenação Edgard Armond

O PENSAMENTO E A VONTADE COMO FORÇAS - FOTOGRAFIA DO PENSAMENTO

Acabamos de ver no ensinamento de André Luiz  já a primeira consequência de elevada profundidade moral, decorrente de um estudo científico. Vamos prosseguir um pouco na parte experimental a fim de que possamos tirar o máximo proveito do estudo levado a efeito no presente fascículo.

A chapa fotográfica pode, muitas vezes, ser impressionada pelo pensamento, na luz (fotografia) ou na obscuridade (skonografia).

Um dos pioneiros desses trabalhos foi o comandante Darget com o qual se passou um fato curioso; projetou ele, com o pensamento, a imagem de uma garrafa, acontece que, na revelação da chapa, além da garrafa surgiu um rosto nítido de mulher, em que não havia pensado; posteriormente essa mulher se manifestou em uma sessão e casa de Léon Denis, dizendo-se mercadora ou feirante em Amiens, o que as investigações posteriores confirmaram.

Inúmeros outros casos a respeito da fotografia do pensamento o prezado amigo leitor poderá encontrar no livro "Pensamento e Vontade" de Ernesto Bozzano, que dedica um cap exclusivamente ao assunto.

Extraído do livro - Iniciação Espírita - Fraternidade dos Discípulos de Jesus - Coordenação Edgard Armond

O PENSAMENTO E A VONTADE COMO FORÇAS -IDEOPLASTIA

O célebre Gustavo Geley define a ideoplastia como sendo
 "moldagem da matéria viva feita pela ideia"
.
A ideia não é um atributo, um produto da matéria; ao contrário, ela é que modela a matéria e lhe confere a forma e seus atributos.

No mesmo sentido já afirmara Camille Flamarion que
 "a explicação puramente mecânica da natureza é insuficiente e existe no universo alguma outra coisa além da pretensa matéria; não é a matéria que rege o mundo, mas um elemento dinâmico e psiquico".

Idêntica afirmativa fazia o insigne fisiologista Claude Bernard:
"O que caracteriza a máquina viva não é a natureza de suas propriedades físico-químicas: é a criação dessa máquina junto a uma ideia definida".

Sobre a importância dessas conclusões, diz Bozzano:

 Essa nova definição científica do ser vivente decorre irrefutável e segura desse grande acontecimento: o de haver sido demonstrada pelos fatos. É a definição pela qual o Pensamento e a Vontade são forças plásticas e organizadoras. E tão grande é o valor teórico dessa demonstração que abre uma nova época científica por desmoronar totalmente, mas fictícias, construções laboriosamente estabelecidas por numerosos grupos de investigadores pertencentes a todos os ramos científicos decalcados no postulado da Onipotência da matéria, quando na verdade o templo alicerçar-se no postulado diametralmente contrário da Onipotência do Espírito."

Vejamos como André Luiz se refere ao assunto (Mecanismos da Mediunidade):

"Pelos princípios mentais que influenciam em todas as direções, encontramos a telementação (desprendimento parcial da personalidade, com o deslocamento de centros sensoriais. Mecanismos da mediunidade – pag 92)e a reflexão comandando todos os fenômenos de associação, desde o acasalamento dos insetos até a comunhão dos Espíritos Superiores, cujo sistema de aglutinação nos é, por agora, defeso ao conhecimento.

"Emitindo uma ideia, passamos a refletir as que se lhe assemelham, ideia essa que para logo se corporifica, com intensidade correspondente à nossa insistência em sustentá-la, mantendo-nos, assim, espontaneamente em comunicação com todos os que nos esposem o modo de sentir.

"É nessa projeção de forças a determinarem o compulsório intercâmbio com todas as mentes encarnadas ou desencarnadas, que se nos movimenta o Espírito no mundo das formas-pensamentos, construções substanciais na esfera da alma, que nos liberam o passo ou no-lo escravizam, na pauta do bem ou do mal de nossa escolha. Isso acontece porque, à maneira do homem que constrói estradas para a sua própria expansão ou que talha algemas para si mesmo, a mente de cada um, pelas correntes de matéria mental que exterioriza, eleva-se a gradativa libertação no rumo dos planos superiores ou estaciona nos planos inferiores, como quem traça vasto labirinto aos próprios pés".



Extraído do livro - Iniciação Espírita - Fraternidade dos Discípulos de Jesus - Coordenação Edgard Armond

O PENSAMENTO E A VONTADE COMO FORÇAS - PENSAMENTO E VONTADE




O Pensamento e a Vontade são forças do espírito que agem sobre o meio ambiente dando forma e propriedade à matéria e interagem com outros espíritos encarnados ou desencarnados.

O Pensamento não é força de aspecto ou natureza apenas subjetiva; é realidade objetiva pois, partindo do espírito, provoca alterações vibratórias na matéria, dando-lhe forma, movimento, cor e provavelmente, som.

E geral o pensamento vem acompanhado de um determinado sentimento; a qualidade do pensamento lhe determina a cor, por exemplo: o pensamento de devoção tem cor azulada; o pensamento de cólera é avermelhado;  a natureza do mesmo lhe determina a forma, vejamos um pensamento de avareza tem forma de garras, o de cólera, forma de relâmpago.

Essa objetividade do pensamento pode ser estudada pela observação direta dos videntes e por fatos naturais constatados cientificamente e que vão desde a sugestão hipnótica até a fotografia do pensamento em forma humanas completas. O microbiologista Felix Archimedes Ponchet, do século passado, via espontaneamente surgirem diante dele as imagens de suas culturas microscópicas e com tal nitidez que podia projetá-las sobre um papel e lhes traçar os contornos a lápis.

Os romancistas Dickens e Balzac por vezes ficavam obsediados pelas visões das personagens por eles idealizadas, vendo-as diante de si como se fossem personalidades reais.

Um pintor que herdara grande parte da clientela do célebre artista inglês Joshua Reynolds, conta-nos Brierre de Boismont em seu livro "As Alucinações", considerado retratista superior ao próprio Reynolds, declarou ter tantas encomendas que chegou a pintar trezentos retratos, em grandes e pequenos, no curso de um ano. Tal rendimento de trabalho afigura-se nos impossível; mas, o segredo da rapidez e do extraordinário êxito do artista consistia na circunstância de lhe não ser preciso mais que uma "pose do modelo original".

As imagens criadas pelo pensamento podem permanecer no local onde foram engendradas por muito tempo, conforme a intensidade das emoções sentidas no momento em que, inconscientemente, foram criadas, dando a impressão de se tratar de espíritos verdadeiros (casas mal-assombradas, as vezes) quando não passam de forma-pensamentos.

A fim de esclarecimento o último parágrafo salientamos que as formas-pensamentos, salvo raras excessões (como por exemplo o caso da Sra. Everitt narraco no livro "Pensamento e Vontade"de Bozano) são estáticas, desprovidas de qualquer movimento, daí a possibilidade de uma distinção entre formas-pensamentos e espíritos.


Extraído do livro - Iniciação Espírita - Fraternidade dos Discípulos de Jesus - Coordenação Edgard Armond

domingo, 4 de março de 2018

Jesus o Governador do Planeta Terra. A evolução normal do Espírito não passa pelo Planeta Terra. Planeta de expiação e provas. O momento atual. Transformação para Planeta de regeneração.




Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os fenômenos, do nosso sistema, existe uma Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias. Essa Comunidade de seres angélicos e perfeitos, da qual é Jesus um dos membros divinos, ao que nos foi dado saber, (...) (1).

A doutrina Espírita nos ensina que Jesus é o Governador do Planeta Terra, (vemos a citação na obra Evolução em Dois Mundos de André Luiz psicografia de Francisco C. Xavier (2)).

Esse título Lhe é conferido porque Jesus, obedecendo à vontade de Deus, juntamente com numerosa assembleia de operários espirituais, como Divino Escultor, acompanhou a formação do globo Terrestre passo a passo, da condensação da matéria espalhada no espaço (3), também à formação dos seres vivos, até a organização de encarnações por espíritos destinados e atraídos pela vibração, para o auxilio evolutivo. 

Juntamente com seus mensageiros zelam pela harmonia deste Planeta Terra.

Jesus nos diz que Deus não cessa de crear, e que toda creação tem por finalidade a evolução que leva a perfeição.

Esse processo  demora milênios, onde a criação passar por etapas evolutivas nos reinos:

 mineral – atração
vegetal – sensação
animal – instinto
hominal – razão
.

 A fim de adquirir experiências, conhecimentos até ao amor sublime.


Jesus também nos diz que há muitas moradas na casa de meu Pai, e Allan Kardec (4) diz que todos os mundos são habitados, e que suas constituições físicas são diferentes, logo, cada planeta é habitado por Espíritos com graus evolutivos correspondentes a evolução do planeta. Outro detalhe, a evoluçao do espírito ocorre nos dois planos, no espiritual (teórico) e no material (prático).

Os espíritos responderam a Kardec que nossas diversas existências acontecem em diferentes mundos (5), podemos dizer com isso que somos seres extraterrestes, pois nossa evolução não se dá somente na Terra.

 E sobre os diferentes mundos (6) Allan Kardec classifica em:



1) Primitivos: onde os espíritos realizam suas primeiras encarnações.

2) De provas e de Expiações: onde predomina o mal, porque há muita ignorância; aí, as pessoas sofrem as consequências dos erros praticados (expiação) ou passa por experiências, testes, testemunhos (provas). A Terra é um mundo assim.

3) De Regeneração: neles não há mais a expiação, mas ainda há provas pelas quais o espírito tem de passar para consolidar as conquistas evolutivas que fez e desenvolver-se mais. São mundos de transição entre os mundos de expiação e os que vêm a seguir.

4) Ditosos ou Felizes: nestes mundos predomina o bem, porque seus moradores são espíritos mais evoluídos; há muito bem-estar e progresso geral.

5) Divinos ou Celestes: onde o bem sem qualquer mistura e a felicidade é absoluta, como obra sublime dos seus moradores: os puros espíritos.

O atual momento de nosso Planeta Terra se encaixa na categoria de provas e expiações, mas estamos passando por uma fase de transformação, onde ele está subindo de grau. Será um Planeta de regeneração e somente seres com afinidades vibratórias farão parte deste novo planeta.

Jesus confia em cada um de nós e nos convida a mudar nossa faixa mental para que possamos sentir o mínimo possível essa transformação.

Como?

Sendo fraternos.

Elaine Saes


 (1) (Livro “A Caminho da Luz”. Pelo espírito Emmanuel. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. FEB. Capítulo 1– A Gênese Planetária: A Comunidade dos Espíritos Puros. P. 18. 11 ª ed. 1982.).

(2) “A religião passa, desse modo, a atuar, em sentido direto, no acrisolamento do corpo espiritual para a Vida Maior, através da educação dos hábitos humanos a se depurarem no cadinho dos séculos, preparando a chegada do Cristo, o Governador Espiritual da Terra.” (Coleção ‘A vida no mundo espiritual’. Pelo espírito André Luiz. Livro “Evolução em Dois Mundos”. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. FEB. Capítulo 20 – Corpo Espiritual e religiões. P.160. 10 ª ed. 1987.).
(3) Livro dos Espíritos questão 39
(4) Livro dos Espíritos questão 55
(5) Livro dos Espíritos questão 172
(6) no livro Evangelho segundo o Espiritismo ITENS 3,4 e 5: DIVERSAS CATEGORIAS DE MUNDOS HABITADOS

sábado, 3 de março de 2018

OBREIROS DO BEM



O Evangelho aprendido é aquele que vivenciamos sem ao menos perceber

As práticas sociais nas quais estamos inseridos trazem-nos reflexões importantes quanto a Lei do Progresso. A pessoa que busca desenvolver linhas de pensamentos mais independentes e com capacidade de analisar de forma crítica a realidade social com objetivo na própria educação espiritual proporcionará uma transformação em si mesmo que gerará o auxílio (pela Lei do Trabalho) para a transformação da sociedade de que participa. Os desafios da sociedade atual são muitos e a evidência da injustiça social e das relações de opressão e exploração entre os homens tem sua gênese na Lei de Causa e Efeitos.

Algumas indagações surgem levando nossa consciência a uma reflexão profunda sobre o significado de nossa existência nesse corpo físico, como sobre nossa família, nossa profissão, enfim, sobre o meio e as formas em que vivemos. O que será de nossa sociedade com as sementes que temos plantado? Como está ocorrendo a semeadura do provir?

A sociedade atual está ainda a gestar os ensinamentos evangélicos do Cristo. Por quê? Porque falta amor nas relações sociais, bem como há a carência de respeito ao outro. Assim, impera o interesse material e as tendências que mantém o homem distante de Deus. O homem caminha para descobrir sua luz interna, mas ainda envolto por penumbras que circunscrevem sua consciência mantendo-o afastado do Pai Celestial. Importante ressaltar que quando acessamos a luz interior conseguimos anular a escuridão da consciência e curar, pela aprendizagem das múltiplas existências, nosso Espírito ainda a caminho da Luz.

Muitos já são obreiros de Cristo, muitos tentam alcançar, passo a passo, a perfeição relativa; entretanto, não se atingem níveis evolutivos superiores contraindo novas dívidas.

Mesmo com todas as vicissitudes da vida a certeza que temos é que existem obreiros do bem infinitamente abnegados, que nos auxiliam a subir as escadas evolutiva. Sabemos da existência das sombras na caminhada e que elas nos fazem cegos perante verdades Divinas. Contudo, sejamos honestos, fora o orgulho e o egoísmo que nos conduziu até o presente momento. É com eles que nossas existências perpassaram e sua depuração depende do despertar tendo o sofrimento com fator importante para a aprendizagem. Os reflexos das tendências e das vitórias morais constroem, então, nossa historia espiritual.

A luz trazida pelos ensinamentos de Jesus conduz os cegos da benevolência à busca constante, mesmo que por momentos se faça inerte, da evolução espiritual. Essa luz conduz o trajeto evolutivo no trabalho da edificação com alicerces profícuos no amor e na caridade. Com isso, a presente encarnação é apenas uma peça que devemos encaixar nessa engrenagem que construímos durante as existências pretéritas. Deus com todo seu amor, é o responsável por nos proporcionar momentos alegres, lembranças, perdas, ganhos, avanço, estagnação... Enfim, aprendizagem constante, mesmo quando o sofrimento está presente.

O Evangelho aprendido é aquele que vivenciamos sem aos menos perceber. As Leis Divinas estão escritas em nossa consciência e projeta-se por nossas ações e escolhas.

Por isso, quando as Leis Divinas, trazida pelas diversas passagens evangélicas é inscrita em nossa essência e aprendida ela se multiplica no coração dos irmãos que tanto buscam respostas sobre o sentido da vida.

Como a caridade nos aproxima da perfeição relativa (relativa a cada um) ela deve ser aquela que vem do coração, aquela que faz parte das nossas ações, como faz parte de nós mesmos. Ela é de todo amor, sentir e de toda alma.

O Espiritismo orienta a busca de compreensão e aplicação da inteligência no auxílio do avanço moral. Isso, então, configura-se em se despir do materialismo e olhar com os olhos do Espírito num trabalho incessante que tem a caridade, e o amor como guia frutificando pelas mãos daqueles que Jesus toca ao coração.

Por fim, Jesus necessita de obreiros encarnados para construção dessa doutrina que tanto nos consola para que nas práticas sociais vigentes germine o amor, a fé, a esperança, enfim, a caridade.

por Lívia Leme

Extraído do jornal Tribuna do Espiritismo  03/2018
http://institutocairbarschutel.org

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Saiba o que a ciência já descobriu a respeito do Abraão histórico.



Maria Fernanda Vomero
O primeiro dos patriarcas bíblicos mudou para sempre o pensamento religioso da humanidade, ao introduzir a crença em um Deus único e onipresente. Tornou-se modelo de fé incondicional e da unidade entre os povos para seguidores do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. Saiba o que a ciência já descobriu a respeito do Abraão histórico
O mundo espera, ansioso, a gradual concretização do plano de paz entre o governo israelense e organizações palestinas, que parece finalmente deixar o rol das boas intenções para se tornar realidade. Tal plano, chamado de “mapa de estrada”, pretende pôr fim a décadas de conflitos sangrentos e atentados terroristas na região, apostando no cessar-fogo e na criação de um Estado palestino até 2005. A almejada paz entre judeus e muçulmanos, israelenses e árabes, remete à história de um homem que se tornou símbolo da fé desapegada e da unidade entre as nações e que, hoje, anda um tanto esquecido sob a poeira dos combates e da discórdia na Terra Santa. Esse homem é Abraão, o primeiro dos patriarcas bíblicos, considerado pai biológico, adotivo e ético de todos os povos. Figura fundamental nas três grandes tradições monoteístas – judaísmo, cristianismo e Islã –, carrega em si a idéia primordial da paz: se todas as nações são irmãs entre si, filhas de um único pai, por que existe ainda tanta guerra?
Conta o Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, que Deus chamou Abraão e lhe disse: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome. Sê tu uma bênção”. Naquela época, Abraão era ainda Abrão, um homem de 75 anos de idade que vivia em Harã, importante centro comercial do mundo antigo e cidade da atual Turquia. Mesmo sem garantias prévias da dupla promessa de terra e descendência, Abraão acreditou em Javé, o Deus único, invisível e onipresente. Partiu sem saber para onde ia. Não levava nas mãos qualquer contrato que garantisse a posse de um trecho de terra. E, embora sua esposa Sara fosse estéril, não duvidou, em momento algum, que teria uma posteridade mais numerosa que as estrelas do céu. Foi sua fé plena e irrestrita em Javé que deu origem à tradição religiosa monoteísta, que prega a existência e a adoração de um só Deus, algo inovador no mundo antigo.
Hoje é impossível conceber o mundo sem o monoteísmo (mesmo que você não partilhe dessa concepção) – e sem Abraão.
A ciência ainda busca pistas sobre a existência desse personagem. Atualmente, historiadores, arqueólogos e estudiosos dos textos bíblicos admitem que provavelmente um homem chamado Abraão tenha vivido na chamada era dos patriarcas, período histórico que remete à Idade do Bronze, entre 2000 a.C. e 1500 a.C. Tabuinhas de argila encontradas em cidades próximas ao rio Eufrates, onde na Antiguidade se localizava a Mesopotâmia e hoje estão a Síria e o Iraque, indicam que os eventos da vida de Abraão, presentes no relato bíblico, podem ter realmente acontecido, mas não necessariamente protagonizados por um único homem.
O que hoje os especialistas afirmam é que um Abraão, chefe de um grupo seminômade, realmente existiu – talvez menos heróico e formidável que o Abraão bíblico, porém não menos importante para a história do seu povo. Assim como tantos outros chefes seminômades, o Abraão histórico deve ter deixado um legado fundamental para o seu clã. Sua história, contada de pai para filho, acabou prevalecendo sobre as demais e incorporando elementos, alheios à saga original, de outros personagens também conhecidos pelos povos da época. Talvez historicamente não tenha existido um só Abraão, mas vários, que ajudaram a compor o Abraão bíblico. Bem-vindo à história da bem-sucedida jornada rumo à Terra Prometida e à descendência numerosa. Uma jornada que ainda não acabou – nem para os fiéis, nem para a ciência.
A religião de Abraão
São 14 capítulos do Gênesis dedicados a Abraão. Ao contrário de outros profetas e personagens do Antigo Testamento, cuja saga começa a ser narrada a partir do nascimento, Abraão estréia já adulto. No início do relato, ele vive com seu pai, Terá, seus irmãos e sua esposa, Sara, em Ur, uma das cidades mais importantes do mundo antigo, localizada ao sul do rio Eufrates (veja mapa na página 44). Não tem filhos, porque Sara era estéril. Certo dia, Terá reúne Abraão, Sara e Ló, sobrinho do patriarca, e resolve seguir com a família para as terras de Canaã, que se estendiam do sudoeste da Síria até o Egito. Ao chegarem à cidade de Harã, depois de uma viagem longa e exaustiva, decidem ficar por lá mesmo. Terá morre. Abraão ouve pela primeira vez o chamado de Deus, que lhe promete terra e descendência. Sem pestanejar, ele deixa Harã e parte rumo à terra dos cananeus.
O relato bíblico narra o episódio como se Abraão fosse monoteísta desde sempre, segundo a concepção que temos hoje. No entanto, o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, evoca passagens da vida do patriarca que não constam da Bíblia e que explicitam como se deu a adesão ao Deus único e o rompimento com a crença dos antepassados. Abraão (ou Ibrahim, como é chamado no Islã), ainda jovem, inicia seu itinerário religioso recusando a adoração dos astros. Nega os deuses petrificados como estátuas e parte para uma verdadeira batalha de fé contra a idolatria dos seus antepassados, destruindo os ídolos locais e pregando a existência de um único Deus – como fez o profeta Maomé mais de 20 séculos depois, quando o Estado Árabe estava se constituindo. O povo condenou Abraão à fogueira e, milagrosamente, ele se salvou. “Por revelação divina, Abraão sabia que deveria divulgar o Deus único, o monoteísmo”, diz o xeque Ali Abdune, da Associação Mundial da Juventude Islâmica, em São Paulo.
“A aceitação dele ao chamado de Deus significou submissão total e voluntária à vontade divina. Abraão deixou tudo – por isso, se tornou o patriarca, o amigo de Deus.”
Narrativas semelhantes são encontradas em textos apócrifos, como o Apocalipse de Abraão, e em histórias da tradição oral judaica, compiladas no Talmude. Uma das passagens relata que tanto o nascimento do patriarca quanto sua luta pessoal contra os ídolos foram previstos por astrólogos, que logo avisaram o rei Nimrod. Este decidiu matar o menino assim que ele nascesse, mas Terá, o pai, o escondeu numa caverna. Abraão ficou no esconderijo durante alguns anos. Ao sair, quando viu o Sol pela primeira vez, pensou consigo mesmo: “Deve ser este o Deus que criou o céu, a terra e a mim”. E rezou o dia inteiro ao sol. À tarde, ao ver o astro desaparecer, pensou: “Não é um Deus”. Avistou a Lua, à noite, e cogitou que talvez fosse ela a senhora do mundo. Durante a noite inteira, fez orações à Lua. Pela manhã, observou que ela havia sumido. Levantou as mãos ao céu e disse: “Não, não são esses os criadores do mundo. Só um Deus existe no céu, que reina sobre todos os outros.
A Ele orarei e perante Ele me curvarei”. Surgia, aos olhos da fé judaica, a concepção monoteísta.
Mas não para a ciência. Achados arqueológicos mostram que os povos da região do Crescente Fértil – como ficaram conhecidas as terras produtivas que se estendiam da antiga Mesopotâmia ao Egito – não acreditavam em um Deus único e soberano. No período patriarcal, que vai de 2000 a.C. a 1500 a.C., vigorava o politeísmo. Os seminômades, porém, eram henoteístas, ou seja, adoravam apenas uma divindade, mas admitiam a existência de outras. “Cada clã cultuava o seu próprio deus”, diz o pastor luterano Milton Schwantes, cientista da religião da Universidade Metodista de São Paulo. “A cultura seminômade não permitia uma diversidade grande de concepções de mundo.”
Segundo Milton, o politeísmo surge porque vários subgrupos, dentro de uma grande população, requisitam funções diferentes da divindade – deus da guerra, deus da colheita, deus do poço… Como a população do clã é pequena e homogênea, uma diferenciação como essa poderia pôr em risco o grupo social. “Daí a tendência a um só caminho religioso”, afirma Milton. “Mas isso não significa que exista um pensamento teórico monoteísta no mundo antigo. Existe, sim, um monoteísmo de adesão, em que cada grupo adere a um único deus.”
Abraão interpretado
Segundo o narrador do Gênesis, o Deus de Abraão é Javé (Iahweh, em hebraico). No entanto, os exegetas, como são chamados os estudiosos dos textos sagrados, reconhecem que se trata de um anacronismo, um acréscimo posterior feito ao relato. No período patriarcal, a denominação mais comum de Deus seria El, como comprovam achados arqueológicos da época. Para entender por que El (o Deus da vida) se tornou Javé (o Deus libertador), você precisa voltar no tempo e mais precisamente ao início da formação do povo de Israel, entre 1250 a.C. e 1000 a.C., quando os primeiros cinco livros da Bíblia, que também formam a Torá judaica, começaram a ser redigidos.
Até aquela época, as narrativas eram basicamente orais. Circulavam várias histórias sobre Abraão e os demais patriarcas. Aos poucos, esses relatos começaram a ser escritos, obviamente sofrendo influências literárias e ideológicas de acordo com o momento histórico que o povo vivia. A versão final do Gênesis e dos demais livros data de 400 a.C., mais de mil anos depois da época em que Abraão teria vivido. “Nesse período, houve um grande movimento para considerar o povo de Israel uma raça única e Javé, o Deus único. Era preciso consolidar a teocracia, e esse tipo de instituição exigia a existência de um Deus absoluto para justificar o poder do rei”, afirma o padre Shige Nakanose, biblista do Centro Bíblico Verbo, em São Paulo.
Até então, havia vários nomes para Deus e Javé era um deles. Referia-se a uma divindade masculina cultuada ao lado da deusa Aserá em um período posterior ao patriarcal. Javé era o Deus adorado pelos grupos que escaparam da escravidão e do exílio e que se juntaram ao incipiente povo de Israel. Assim, quando as últimas versões do Gênesis foram escritas, os redatores tentaram substituir referências às divindades da região de Canaã – como o nome El – por invocações a Iahweh.
Interferências como essa também moldaram a figura do Abraão bíblico. “Originalmente, existiam diversas tradições orais sobre os patriarcas. Eram narrativas curtas e independentes, que falavam do sacrifício de Isaac, da visita dos três estrangeiros à tenda de Abraão, da destruição de Sodoma e Gomorra e assim por diante”, diz o padre Shige. Essas narrativas tinham, inclusive, uma função pedagógica para o grupo e traziam mensagens intimamente relacionadas com o contexto da época. Pouco a pouco, tais memórias foram sendo reunidas e adaptadas conforme a intenção do redator. “Vários clãs contavam as histórias dos seus pais e fundadores. A história de Abraão foi a que prevaleceu e acabou absorvendo as demais”, afirma o biblista.
Por isso, ao longo do relato do Gênesis sobre o patriarca, existem versões de uma mesma história e vários anacronismos, como as passagens que citam o uso de camelos (esses animais só foram domesticados em torno de 1100 a.C.) ou mesmo as promessas divinas de terra e de descendência numerosa. “São promessas recentes no contexto bíblico, porque pressupõem um Estado. Para o chefe de um clã, a promessa de muita gente é um problema, já que ele pode alimentar uma quantidade restrita de bocas. E a necessidade de terra é muito mais agrícola que seminômade”, diz Milton Schwantes. “A promessa de um descendente faz parte da história de Abraão. Mas as outras, de posteridade e de terra, referem-se a um povo. Um país, para dar certo, precisa de terra e gente.”
O Abraão bíblico crê em Javé e mantém-se fiel a Ele, mas não consegue imaginar a concretização das promessas. Ele não tem filhos e sua esposa é estéril – como, então, sua descendência será tão numerosa quanto as estrelas do céu? Diversos povos já habitavam a Terra Prometida – como ele poderia possuí-la? Deus, então, sela duas alianças com o patriarca. A primeira, pela terra, envolve o sacrifício de animais. Abraão toma uma novilha, uma cabra e um carneiro e divide-os ao meio, colocando as metades umas diante das outras. Oferece também dois pássaros, sem dividi-los. “Eu dou esta terra aos teus descendentes, desde a torrente do Egito até o grande rio Eufrates”, diz o Senhor.
Mais tarde, Deus firma a segunda aliança, dessa vez pela descendência. E propõe a circuncisão de todos os homens do clã e de todos os meninos no oitavo dia a partir do nascimento. Até aquele momento, o nome do patriarca era Abrão, que significa “pai elevado” ou “pai erguido”. A partir daí, Deus o chama de Abraão, “pai de uma multidão”. Para simbolizar a dimensão do acordo entre ambos, Deus também muda o nome de Sarai para Sara. “Eu a abençoarei e dela te darei um filho. Eu a abençoarei e ela será a mãe de nações e dela sairão reis.” A promessa se realizou e Sara gerou Isaac.
A Era Patriarca
A dimensão religiosa das figuras de Abraão e de Sara é enorme – mas o que a ciência tem a dizer sobre “o pai de uma multidão” e “a mãe das nações”? “Existem achados arqueológicos que comprovam que existiu, sim, um período patriarcal no qual podem ter ocorrido todos os eventos que são descritos no Gênesis”, afirma a historiadora Ruth Leftel, da Universidade de São Paulo. “Nomes, costumes e normas de comportamento dos patriarcas do relato bíblico eram realmente aqueles. O que não foi comprovado é a existência física de Abraão, Isaac e Jacó, esposas e filhos como figuras históricas.”
Hoje se sabe que os patriarcas habitaram o lado ocidental da Mesopotâmia, a oeste do rio Eufrates, e partilharam o mundo material, cultural e ritual dos povos conhecidos como semitas ocidentais. As tabuinhas de argila encontradas em escavações na região referem-se a eles como amuru, que significa: “homens” (am) e “ocidente” (uru).
As descobertas esclarecem certos procedimentos presentes na história de Abraão. Na primeira aliança firmada com Deus, por exemplo, o patriarca matou alguns mamíferos e os cortou ao meio, colocando as metades uma na frente da outra. “Como na época não havia tabelião para reconhecer firma ou legitimar contratos, uma aliança entre dois chefes de tribo ou dois governantes de cidades precisava ser feita entre as metades de um burro para ter validade”, afirma Ruth. Os animais do relato bíblico são outros, porque na época da redação já existiam certas prescrições quanto aos animais, mas o costume é rigorosamente igual. Outro exemplo é a atitude de Sara. Como ela era estéril, cedeu uma de suas servas, chamada Agar, a Abraão para que ele garantisse a descendência. Nas tabuinhas de argila, a lei é bem clara: a mulher permanente ou temporariamente estéril era obrigada a escolher uma filha ou uma escrava para dormir com o marido e assim gerar descendentes.
Também os nomes que constam do Gênesis são idênticos àqueles atribuídos aos amuru, formados por um verbo e uma denominação de Deus, em geral El. “Os nomes dos patriarcas têm relação com a história e os atos da vida deles. Foram colocados posteriormente”, diz Ruth. Um exemplo é o nome do filho de Abraão com a escrava Agar, o primogênito Ismael. Vem de Ishma-El e significa “Deus ouve”, em referência à passagem em que Agar está no deserto, grávida, e Deus aparece e a ampara. Já o filho nascido da promessa divina é Ytzhak-El, na forma abreviada Isaac, que quer dizer “Deus ri”. Tanto Abraão quanto Sara riram, quando Deus lhes prometeu uma posteridade numerosa, porque ambos eram idosos e não imaginavam como poderiam gerar um filho.
Hoje se sabe que os patriarcas, assim como os amuru, viviam de fato em clãs seminômades e mantinham elos econômicos com as cidades – troca de produtos dos rebanhos pelos manufaturados. Apesar da relação comercial, as tabuinhas mostram que os amuru não podiam participar da vida das cidades nem ser considerados cidadãos de Canaã. Eles não tinham direitos e não podiam fixar-se numa cidade, a não ser que o governante fosse benevolente e permitisse que levantassem tenda por um tempo determinado. As leis eram claras: um cidadão livre, para ter direitos, precisa ser dono de terras e ser sedentário há gerações. “Isso explica por que os patriarcas não podiam se fixar e ficavam circulando durante todo o tempo”, diz Ruth Leftel.
Se as tabuinhas não podem garantir se algum Abraão se destacou entre os amuru, outros registros arqueológicos comprovam que a história do patriarca alcançou outros povos da Antiguidade. “A dúvida sobre a existência de Abraão é nossa, mas não dos antigos”, afirma o historiador André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Eles se relacionam com o passado de modo bastante diferente. A fé justifica tudo. Acreditam que Deus – ou os deuses – intervém em torno de determinadas figuras, transformando-as em heróis fundadores.”
Amuletos de uso mágico de origem desconhecida encontrados em escavações piratas estampam a figura de um jovem carregando um cutelo. Há uma criança e um altar. Uma mão sai do céu e aponta para um arbusto, onde está preso um cordeiro. Não há dúvidas: trata-se da passagem do sacrifício de Isaac, uma das mais marcantes do Gênesis, em que Deus põe Abraão à prova, pedindo que ele sacrifique o filho tão amado. Abraão obedece. No momento em que ergue o cutelo, Deus o interrompe e salva Isaac. Um carneiro, então, é oferecido em holocausto. Nas costas dos amuletos, um alfabeto semítico, provavelmente com palavras em hebraico e samaritano, sem significado aparente. “Se não há significado, são palavras mágicas. Só quem usava o amuleto as conhecia”, diz André.
Para ele, a existência desse tipo de material e a invocação do nome de Abraão em fórmulas mágicas são provas de que ele existiu. Além disso, o fato de estarem em hebraico demonstra que o uso é próprio de quem está inserido na narrativa e acredita nela. “Quem fez e quem usou o amuleto muito provavelmente é um judeu”, afirma ele. Referências a Abraão também aparecem em textos de magia escritos em papiros e usados para submeter demônios, unir namorados etc. Chamar pelo “Deus de Abraão, Isaac e Jacó” era uma prática bastante freqüente, o que revela a influência cotidiana dessas histórias.
O legado de Abraão
De acordo com a Bíblia, Abraão morreu aos 175 anos de idade e foi enterrado por seus filhos Ismael e Isaac onde estava o túmulo de Sara, nos arredores da cidade de Hebron. Seu legado espiritual independe da existência histórica. Para milhões de fiéis no mundo todo, basta o exemplo de fé e obediência do patriarca. “Abraão introduziu o revolucionário conceito de monoteísmo ético”, diz o rabino Henry Sobel, da Congregação Israelita Paulista. “Ético porque acreditar em um único Deus exige assumir a igualdade entre todos os filhos dele. Todos os povos, portanto, são iguais. E, embora tenhamos um único Deus, Deus tem mais do que um único povo.”
Para o psicólogo Henry Abramovitch, da Universidade Tel Aviv, em Israel, a saga de Abraão foi uma verdadeira viagem em busca do autoconhecimento – que ainda se mantém como fonte de inspiração para muita gente. Abramovitch, cujo nome em russo significa “filho de Abraão”, escreveu o livro The First Father (“O primeiro pai”, ainda sem tradução em português), no qual traça um estudo psicológico sobre o patriarca. “Ele tinha tudo e deixou esse tudo a fim de buscar um novo destino. As palavras do chamado divino, em hebreu Lech Lekha, podem ser lidas literalmente como ‘Vá para si mesmo’”, afirma o psicólogo. “Assim, ele se torna o protótipo da jornada ao conhecimento de si mesmo e da individualização.” Abraão não é um homem que simplesmente segue ordens. Pelo contrário, ele ensina como estar em contato com o self, o âmago de si mesmo.
Uma das passagens mais célebres da história do patriarca, o sacrifício de Isaac, inspirou o filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard a refletir, na obra Temor e Tremor, sobre o que é a fé. O livro lançou as bases para uma nova teologia no século 20, voltada ao mesmo tempo para a transcendência e a ação no mundo. “Abraão acredita que deve obedecer a ordem divina e sacrificar seu filho, mas tem a certeza de que Deus não vai abandoná-lo”, diz o filósofo e cientista da religião Ricardo Quadros Gouvêa, da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo. Situação a princípio absurda, Kierkegaard parte daí para concluir que a fé vai além da capacidade da razão, não se resume à ética e aos valores universais e, especialmente, exige um engajamento no momento presente. “Abraão sabia que teria Isaac de volta. Demonstrou, ao mesmo tempo, desprendimento e compromisso”, afirma Ricardo.
Na mística islâmica, o patriarca representa um símbolo da busca pelo centro de si mesmo. Ele é o amigo íntimo de Deus, o jovem herói que destrói os ídolos internos e instaura a unidade de cada indivíduo. “A característica essencial de cada ser humano é a ligação com o sagrado. Você é um jeito de Deus aparecer – isso é monoteísmo, o um que está presente em cada pessoa”, diz a psicóloga Beatriz Machado, da USP, que pesquisa as obras do mestre sufi Ibn ‘Arabî. Para os estudiosos da Cabala, a mística judaica, Abraão também apresenta aspectos simbólicos. “Ele está relacionado à expansão de fronteiras, à superação das próprias limitações e ao princípio de que tudo está relacionado com tudo”, afirma Roberto Natan, professor de meditação cabalística na Academia de Cabala Rav Meir, no Rio de Janeiro.
A unidade é um tema recorrente quando o assunto é Abraão. Primeiro, porque ele é considerado pai espiritual das três grandes tradições monoteístas. Depois, por deter, de acordo com o relato bíblico, a paternidade biológica de judeus, por meio do filho Isaac, e de árabes, pela linhagem do primogênito Ismael. A ciência vem agora corroborar essa tese. Uma pesquisa, realizada em conjunto por cientistas de cinco países, entre eles Estados Unidos e Israel, mostrou que palestinos, sírios, libaneses e judeus têm forte parentesco genético entre si. O estudo, que comparou o DNA de 1 300 homens árabes e judeus de 30 países, revelou também que esses povos possuem um ancestral comum, possivelmente os semitas ocidentais, que teriam habitado o Oriente Médio há pelo menos 4 mil anos. Seriam todos eles descendentes do mesmo patriarca?
Enquanto os cientistas ainda não têm a resposta para tal pergunta, judeus, cristãos e muçulmanos continuam a buscar cada qual o “seu” próprio Abraão. Em cada crença, um aspecto do patriarca é ressaltado. “Abraão pode ser comparado a um moderno meio de comunicação que apresenta diferentes mensagens, de acordo com os paradigmas de cada religião e cultura”, afirma Reuven Firestone, especialista em judaísmo e Islã do Hebrew Union College, nos Estados Unidos. “Mas ele pode ser também a ponte entre as três tradições. Afinal, Abraão é um legado de todos.” Firestone lembra o capítulo 18 do Gênesis. O patriarca está diante de sua tenda, descansando, quando percebe a chegada de três homens. Hospitaleiro, recebe-os com distinção. Não pergunta quem são nem se têm dinheiro. Simplesmente lhes oferece pão, leite, manteiga e um novilho preparado na hora. “Eis uma herança de Abraão: o exemplo de acolhida e hospitalidade”, diz Firestone. Que todos os filhos sejam bem-vindos na grande tenda do patriarca.

Mulheres de Abraão

O que seria de Abraão se não fossem Sara, a esposa, e Agar, a escrava? Figuras fundamentais na saga do patriarca, elas protagonizam alguns dos mais importantes capítulos do Gênesis. “O que movimenta o texto bíblico e as promessas são os filhos”, diz a pastora metodista Nancy Cardoso Pereira, teóloga especialista em Bíblia Hebraica. As memórias femininas, no entanto, são contidas pela tradição patriarcal. Abraão mente a respeito de Sara, dizendo que ela é sua irmã, em duas versões da mesma história. Quer salvar a própria pele. Muito bonita, Sara chama a atenção do faraó e, em outra ocasião, do rei Abimelec, que a tomam como concubina. Deus, porém, os castiga. Eles descobrem a farsa e repreendem Abraão. Sara não diz uma palavra – não argumenta nem lamenta.
As duas mulheres se confrontam quando o assunto é o primogênito de Abraão. Seguindo um costume comum no período patriarcal, a estéril Sara cede uma das servas ao marido para que a descendência se garanta. Agar engravida e, segundo o relato bíblico, passa a esnobar a sua senhora. Por causa disso, Sara se ressente e castiga a escrava, expulsando-a do clã. Agar foge, então, para o deserto. Num dos mais belos trechos do Gênesis, Deus surge a Agar próximo a um poço, no meio do deserto, e pede que ela volte para casa. (O “Deus do poço” é uma imagem bastante recorrente na religiosidade do período patriarcal.) Também a ela Deus promete: “Multiplicarei tua descendência de tal forma e será tão numerosa que não se poderá contar”. Isso acontecerá por meio de Ismael, filho que ela carrega no ventre. Agradecida, Agar nomeia o Deus que conversou com ela de El-roí, o “Deus que me vê”.
“É possível que a esterilidade de Sara e de outras mulheres do período esteja relacionada a uma tradição mesopotâmica das sacerdotisas, que não engravidavam para se dedicar ao culto da divindade”, diz Nancy. “Para contar essa história, não mais no contexto da autonomia religiosa daquelas mulheres, o registro narrativo as apresenta como estéreis.”

Filhos de Abraão

Segundo o Gênesis, Ismael, o filho de Agar e Abraão, deu origem aos povos árabes. O profeta Mohammad, ou Maomé, teria vindo dessa linhagem. Para os muçulmanos, o itinerário de Abraão vai além das terras de Canaã e do Egito. “Abraão passou pela Palestina, pela Arábia Saudita e por Meca, onde teve de deixar sua segunda esposa, Agar, e Ismael”, afirma o xeque Ali Abdune. “Segundo as escrituras sagradas, separar-se do filho primogênito foi um teste que Abraão teve de passar.”
Agar foi expulsa duas vezes por Sara – a segunda vez por um motivo que o texto bíblico não esclarece direito. Diz o Gênesis que Ismael brincava com o irmão Isaac. Sara, ao ver a cena, temeu pela herança do seu próprio filho e pediu a Abraão que expulsasse a escrava e Ismael (que aparece no texto ora como um adolescente, ora como uma criança). Ambos foram parar no deserto. A água acabou e Agar, desesperada, começou a chorar. Deus, então, apareceu e disse: “Não temas, pois Deus ouviu os gritos do menino do lugar onde ele está. Ergue-te! Levanta a criança, segura-a firmemente porque eu farei dela uma grande nação”.
Para o mundo judaico-cristão, o filho da promessa de descendência numerosa é Isaac. Foi ele que Abraão quase sacrificou na colina de Moriá, local que a tradição encarregou-se de associar ao monte em que se edificou o Templo de Jerusalém. De Isaac, o segundo patriarca, se originou o povo de Israel. Para o Islã, porém, Deus testa de maneira semelhante a fé de Abraão, mas o nome do filho e o lugar não são mencionados. Numa passagem do Alcorão, o patriarca diz: “Ó filho meu, sonhei que te oferecia em sacrifício”. Quando Abraão demonstra que vai se submeter à ordem divina, outro filho lhe é prometido, Isaac. Por isso, a maioria dos muçulmanos acredita que Ismael foi o menino quase oferecido em holocausto.

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