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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A Era dos Patriarcas


Fernanda Colavitti

Não há nenhum indício arqueológico que indique a existência de Abraão, Isaac e Jacó.

Conta a Bíblia que a formação do povo de Israel tem início quando Deus aparece a Abrão (que depois terá seu nome mudado para Abraão) e lhe ordena que deixe sua terra e parta para outra, que lhe será posteriormente indicada (Canaã). Em troca, ele tem a promessa de formar uma grande nação, que irá ganhar todas as terras, do rio Nilo ao Eufrates. Abraão obedece e é assim que, segundo o livro do Gênesis, sua família dá origem a todas as nações da região.

Mas será que existe alguma evidência arqueológica de que essa narrativa e a própria existência dos patriarcas tenham fundamento histórico? Com relação aos patriarcas - Abraão, Isaac e Jacó - não existe nenhuma prova de que tenham existido de fato, mas esse não é um consenso entre os pesquisadores. Há os que dizem que é provável que tenham sido reais, mas como não eram pessoas importantes financeira ou politicamente, não deixaram vestígios. "Dificilmente a arqueologia vai encontrar algo contundente, pois não foram reis, não escreviam e não construíram grandes palácios. Temos que dar um crédito justamente à modéstia que cercava a vida dessas pessoas", diz Pedro Vasconcellos, professor de Teologia da PUC de São Paulo. "Estamos lidando com condições sociais muito precárias, pobres, muito insignificantes socialmente para ter resíduos históricos", concorda o teólogo Milton Schwantes, professor da pós-graduação em ciências da religião da Universidade Metodista de São Paulo.

Idealizações do passado

Outros argumentam que os patriarcas são representações das tribos seminômades que viviam na região do Crescente Fértil (entre os rios Tigre e Eufrates) entre 2000 e 1500 a.C., portanto não são figuras reais. "O próprio nome Abraão, em hebraico, significa antepassado, o que já indica se tratar de um personagem fictício. Do ponto de vista histórico, são idealizações a respeito de uma época. O que a arqueologia mostra é que aquele contexto em que ele está retratado na Bíblia realmente existiu, como as cidades mesopotâmicas mencionadas", diz o arqueólogo Pedro Paulo Funari, professor de história e arqueologia da Unicamp.

Mas há controvérsias mesmo em relação à verossimilhança das narrativas, no que diz respeito aos costumes da época em que a Bíblia situa a história dos patriarcas. Segundo alguns pesquisadores, os relatos refletiriam a realidade da região do antigo Oriente no período em que os textos foram compilados, por volta de 700 a.C., não no período a que se refere a Bíblia. É o que sustentam os arqueólogos Neil Silberman, um dos editores da revista "Archaeology", e Israel Finkelstein, da Universidade de Tel-Aviv, no livro "A Bíblia não Tinha Razão".

Eles argumentam que a genealogia dos patriarcas, as nações que surgiram de seus lugares de encontro, os casamentos e as relações familiares descritas no Gênesis mostram um mapa humano mais recente do antigo Oriente, do ponto de vista dos reinos de Israel e Judá, nos séculos 8 e 7 a.C. "Não apenas inúmeros termos étnicos e nomes de lugares podem ser datados nesse período, mas as respectivas caracterizações se enredam perfeitamente com o que sabemos sobre as relações dos povos e reinos vizinhos de Israel e Judá", escrevem.
Camelos imaginários
Como exemplo, citam as repetidas menções aos camelos como animais de carga nas histórias dos patriarcas. As pesquisas arqueológicas mostram que esses animais só passaram a ser domesticados para esse fim depois de 1000 a.C.

Na história da venda de José (um dos 12 filhos de Jacó) como escravo por seus irmãos, por exemplo, são descritas caravanas de camelos carregando "resina, ungüento e mirra", que são os principais produtos lucrativos do comércio árabe durante os séculos 8 e 7 a.C. "A história dos patriarcas parece ter sido familiar e muito interessante para o povo de Judá no século 7 a.C. A paisagem desses relatos é uma visão romântica e sonhadora do passado campestre, costurada a partir da memória, de fragmentos de costumes antigos, de lendas sobre o nascimento dos povos e de preocupações provocadas pelos conflitos contemporâneos", concluem.

Apesar de reconhecer a existência de anacronismos, como o caso dos camelos nos relatos sobre os patriarcas, o arqueólogo israelense Amihai Mazar diz, no livro "Arqueologia na Terra da Bíblia", que as similaridades entre a cultura dos séculos 20 a 18 a.C. e aquela ilustrada nas histórias do Gênesis são próximas demais para serem ignoradas.

A terra de Canaã, por exemplo, aparece nesses relatos como possuidora de uma próspera cultura urbana, com clãs de pastores vivendo entre as cidades, exatamente como era a situação em aproximadamente 1800 a.C. "Essas narrativas do Gênesis devem ter sido tradições muito antigas, passadas oralmente de geração em geração até que foram escritas pela primeira vez, talvez durante a época do Reino Unido de Davi e Salomão", escreve Mazar. Segundo ele, como é da natureza da transmissão oral, muitos aspectos podem ter sido acrescentados; contudo, a origem das tradições pode remontar mesmo ao período a que se refere a Bíblia. Se do ponto de vista da ciência as narrativas que envolvem Abraão são motivos de debates acalorados, no campo da fé pelo menos há a certeza de que ele foi e continua sendo uma das principais bases das três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.
Retirado de: <http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT705241-2681-2,00.html>

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