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sábado, 23 de julho de 2016

O Poder da Resignação




“O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, conforme o modo por que encare a vida terrena.” O E.S.E. cap 5 item 13.

Quanta amargura, desistência, revolta e fantasia têm cultivado a maioria dos homens reencarnados, por não saberem construir sentidos espirituais elevados às suas provaçõ
es?
Qual conquista será maior para a alma na Terra do que a compreensão sagrada dos objetivos de todos os problemas e experiências?

Somente quem sabe dar significado santificado a cada lance de dor ou cada benefício do caminho pode avaliar a importância dessa  vitória.

A forma de encarar a vida deveria ser tema de urgente aprofundamento dos trabalhadores espíritas. Com todo carinho e respeito, sugerimos uma urgente revisão de conceitos com relação à afirmativa de que o espírita possui uma fé racional. Se isso fosse verdade, teríamos uma conscientização e um comprometimento mais amplos com a causa que abraçamos e melhores reações perante os testemunhos e sofrimentos.

Temos ainda uma fé embrionária e sufocada por conceitos antigos do religiosismo, com forte inclinação para um conjunto de preceitos incontestáveis.

A fé racional inicia-se quando passamos a encontrar no caminho mental alguns recursos elaborados pela arte de meditar sobre nós mesmos. Ao compreender melhor o que ocorre com a vida interior, capacitamo-nos cada vez mais para avaliar os propósitos divinos nas ocorrências que nos cercam.

Outro traço marcante de que a fé racional começa a se desenvolver no campo dos nossos sentimentos se dá quando deixamos de colecionar certezas sobre a vida. Mais do que nunca, na etapa evolutiva que assinala nosso progresso, somos convocados a revisar, reciclar, analisar por outro ângulo, repensar ideias, reavaliar métodos, renovar posturas perante pessoas e fatos. A certeza instituída é, quase sempre, acesso à zona de conforto.

O momento de vida da Terra nos convida a aprender com conviver com as incertezas acerca de tudo à nossa volta. Uma parte do sentimento de segurança vai se desenvolver na forma de conduzir nossas ações, e as palavras controle, disciplina e planejamento serão usadas dentre de uma ótica de constante relatividade. Quando necessário, seremos chamados a repensar conceitos, a fim de que haja dinamismo em nossos projetos de vida.

Assim se expressou Allan Kardec  sobre o assunto: “A fé necessita de uma base, e essa base é a compreensão perfeita daquilo em que se deve acreditar. Para acreditar, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender.”

A aquisição dessa fé conduz a Espírito ao estado de resignação, que lhe permite a harmonia diante da dor e dos testes existenciais.

A resignação é o conjunto de habilidades que nos possibilitam uma visão otimista da vida, por meio de escolhas conscientes e de uma conduta de autoamor, distante da postura de vítima e do sentimentalismo. Crenças sadias, capacidade de adiar gratificações pessoais e sentimentos de gratidão, são as principais habilidades que conduzem o homem a ser resignado.

O homem que busca a paciência diante dos desafios e contrariedades vai adquirindo o hábito de pensar na vida é alguém dotado de uma força propulsora e calmante. Essa condição lhe permite escolher com inteligência e equilíbrio a forma adequada de reagir e agir nas turbulências, imprevistos e provas, Essa força realizadora, independe das condições adversas, é o resultado do desapego de seus próprios conceitos, é o espirito de prontidão da alma que sabe que a todo instante, na vida corporal, estará sendo chamado a novos aprendizados que vão abalar suas certezas, convocando-a a rever muitas de suas convicções.

Os resignados possuem mais saúde e resistência às dores da vida, são mais desprendidos e encontram sempre boas soluções para suas provas. Possuem metas, mas sabem lhes dar curso maleáveis, conforme a necessidade. Sofrem, todavia, procuram a utilidade sagrada do sofrimento e dão significado educativo e libertador aos mais dolorosos dramas. Dessa forma, podem experimentar  o cansaço, a raiva, a perda, a ansiedade e o medo, mas jamais cruzam os braços, e continuam firmes em busca das soluções. Essa é chamada resignação ativa, dinâmica, educativa, pródiga de resiliência.

Bem diferente é aquele que e entende resignação como tolerar sofrimento em silencio, aguentando a vida. Ele tolera a dor, resiste e briga com ela, quando, na verdade, ele deveria se entender com ela. Ele obedece aos imperativos da dor, razão pela qual asseverou o espírito Lázaro: “A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração (...)”. Na obediência, cumprimos o dever imposto pela consciência; na resignação, vamos além e transformamos o dever em degrau de ascensão, livrando-nos do amargor e da crueldade das expiações.

Hoje,  além das provas adicionais ou voluntárias que poderiam ser evitadas, temos de considerar o tema “acréscimo voluntário de sofrimento nas provas necessárias”, ou seja, a adição dispensável de dor pela ausência da resignação, Em razão do apego a coisas e pessoas, negócios e pontos de vista, as dificuldades dos teste são ampliadas pela forma rebelde de reagir.

Cada problema de nossa vida tem objetivos bem definidos pela sábia providência de Deus. Vivê-los sem entender seus fins é o mesmo que sofrer por sofrer. Eis a razão da oportuna advertência de Lacordaire, quando diz: “Mas poucos sabem sofrer, poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzir o homem ao reino de Deus. O desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações se vos falta coragem”.

Ser resignado não significa viver sem sofrer ou negar o sofrimento. Essa recusa inconsciente dos sentimentos é uma defesa perante as agressões da dor. É um mecanismo defensivo que alivia a angústia do nosso sofrer. Contudo, os que são verdadeiramente resignados vãos mais além, e colocam-se fora do alcance da mágoa e da revolta em função do poder de aceitação e da compreensão que surge da análise positiva que fazem sobre suas experiências, valores e imperfeições.

O escritor inglês Aldous Huxley afirmou: “Experiência não é o que acontece a você. É o que você faz com o que acontece a você”.

Sem dúvida, a resignação é o caminho para ser feliz, porque felicidade é uma questão de construção intima de quem tem a visão iluminada sobre o existir. É quem aprende a existir adquire a sabedoria de compreender a aceitar.

Ermance Dufaux – Wanderley Oliveira – livro Prazer de Viver cap 3


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